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Por que as pessoas continuam morrendo por câncer colorretal?

Angela Hissae Motoyama Caiado

22/04/2021

Atualizado em22/04/2021

5 min

Destaques

  • O rastreamento do câncer colorretal pode salvar muitas vidas, porém ele não tem uma aceitação pelo público leigo e também é negligenciado por muitos médicos.

  • Além dos métodos de visualização direta da mucosa, como a colonoscopia convencional, há outras formas menos invasivas de realizar o rastreamento como o FIT (teste imunológico para sangue oculto nas fezes) e a colonoscopia virtual

  • O FIT e a colonoscopia virtual necessitarão de uma complementação com a colonoscopia se forem positivos, porém, seu uso se justifica pois cerca de 85 % das colonoscopias, em indivíduos com risco populacional normal (baixo), não demonstram alterações relevantes. A colonoscopia, neste contexto, teria um papel terapêutico e não apenas diagnóstico, por permitir a ressecção de lesões precursoras. Algum método de rastreamento é melhor do que nenhum!

Por que as pessoas continuam morrendo por câncer colorretal?

Ainda me lembro certa vez quando recebi a ligação telefônica de minha mãe pedindo que eu avaliasse a tomografia computadorizada de um vizinho, pois segundo os médicos ele teria uma doença grave. Sim, com apenas 58 anos, ele apresentava um câncer de cólon com múltiplas metástases hepáticas e pulmonares. Realmente, tratava-se de uma doença grave. Fiquei compadecida, mas irritada ao mesmo tempo, pois além desta história, já havia visto muitas outras com desfechos nada felizes. Por que as pessoas continuam morrendo por câncer colorretal (CCR), uma doença na maioria dos casos prevenível? Por que usamos máscaras e rezamos para que uma vacina contra o SARS-CoV-2 esteja disponível o quanto antes e não fazemos o rastreamento para o CCR? Por que não o indicamos com veemência aos nossos pacientes? Às vezes, até recomendamos, mas não somos verdadeiramente firmes e incisivos.

O CCR geralmente surge a partir de uma lesão precursora e demora vários anos para se desenvolver. Esta é a sequência adenoma-carcinoma, responsável por cerca de 70% dos casos. Por esta razão, o CCR é considerado ideal para o rastreamento, pois apresenta lesão precursora conhecida (adenoma), facilmente tratável (ressecção colonoscópica) e de evolução lenta (longa janela para sua detecção). Estima-se que esta janela seja de 26 anos para adenoma diminuto, 8 anos para adenoma pequeno e 5 anos para adenoma grande. Os adenomas avançados (maiores ou iguais a 1,0 cm, com displasias de alto grau ou com componentes vilosos) apresentam maior risco de evoluir para CCR. A via serrilhada, uma segunda via de desenvolvimento do CCR, tem como principais lesões precursoras as lesões serrilhadas sésseis que mesmo sem displasias avançadas, podem evoluir para o CCR e habitualmente se localizam no cólon direito. 

A prevenção primária do câncer colorretal envolve mudanças no estilo de vida como atividade física regular, adoção de dieta rica em fibras, frutas e vegetais, com menos carnes vermelhas, gorduras e alimentos processados, controle do peso e do consumo de bebidas alcóolicas e cigarros. A prevenção secundária, refere-se ao rastreamento que deve se iniciar entre 45 e 50 anos de idade, para pacientes com baixo risco, isto é, sem outros fatores de risco de CCR (tabela 1). Há diversas opções de rastreamento do CCR (tabela 2), com diferentes níveis de evidência para justificar o seu uso, assim como, características inerentes às mesmas, como facilidade na realização, aceitação, disponibilidade e riscos (tabela 3). É praticamente consenso entre as organizações que ALGUM MÉTODO DE RASTREAMENTO É MELHOR DO QUE NENHUM. Assim, devemos apresentar aos nossos pacientes as diversas opções, explicando suas vantagens e desvantagens. Embora a colonoscopia seja o único método de rastreamento que não necessita nenhum teste adicional, exames menos invasivos, como o FIT (teste imunológico para sangue oculto nas fezes), e a colonoscopia virtual (colonografia por tomografia computadorizada) podem ser uma boa alternativa. Estes exames, como mencionado acima, necessitarão de uma complementação com a colonoscopia se forem positivos, porém, seu uso se justifica pois cerca de 85 % das colonoscopias, em indivíduos com risco populacional normal (baixo), não demonstram alterações relevantes. A colonoscopia, neste contexto, teria um papel terapêutico e não apenas diagnóstico, por permitir a ressecção de lesões precursoras.

O desfecho desta doença, como de tantas outras, é influenciado pelo estágio na qual ela é diagnosticada. Estudos prospectivos e randomizados bem conduzidos já demonstraram que o rastreamento é capaz de reduzir a incidência, assim como a mortalidade pelo CCR. Desta forma, temos que assumir um papel mais efetivo, estimulando a aderência de nossos pacientes, tanto ao rastreamento do CCR, quanto ao seguimento dos exames positivos.

 

Fatores de risco de CCR (tabela 1)

Risco moderado
História familiar de CCR em um ou mais parentes de primeiro grau,
Antecedente pessoal de pólipo (maior do que um centímetro ou múltiplos pólipos de qualquer tamanho) e de CCR

 

Risco alto
CCR hereditário com polipose: polipose adenomatosa familiar (PAF), poliposes hamartomatosas
Câncer colorretal hereditário não poliposo (HNPCC)
Doença inflamatória intestinal

 

Recomendações de rastreamento da American Cancer Society para pacientes de baixo risco 

Tabela 2

Exames de fezes
Teste imunológico para sangue oculto nas fezes (FIT) a cada ano
Teste de DNA nas fezes a cada 3 anos (não disponível no Brasil)
Teste de sangue oculto nas fezes baseado em Guaiaco a cada ano

 

Exames estruturais do cólon e reto
Colonoscopia a cada 10 anos
Colonografia por tomografia computadorizada (colonoscopia virtual) a cada 5 anos
Sigmoidoscopia flexível a cada 5 anos

 

Tabela3

Teste
Benefícios
Limites
Teste imunológico para sangue oculto nas fezes (FIT)
Sem riscos diretos para o cólon
 
Menor sensibilidade na detecção de pólipos e alguns cânceres
 
 
Não requer preparo intestinal ou dieta pré-teste
Pode ter resultados falso-positivos
 
 
Coleta feita em casa
Precisa ser feito todos os anos
 
 
Razoavelmente barato
A colonoscopia será necessária se anormal
 
Teste de sangue oculto nas fezes baseado em Guaiaco
Sem riscos diretos para o cólon
 
Menor sensibilidade na detecção de pólipos e alguns cânceres e pode ter resultados falso-positivos
 
 
 
Não requer preparo intestinal
Mudanças na dieta pré-teste (e possivelmente mudanças na medicação) são necessárias
 
 
Coleta feita em casa
Precisa ser feito todos os anos
 
Barato
A colonoscopia será necessária se anormal
 
Teste de DNA nas fezes
Sem riscos diretos para o cólon
 
Deve ser feito a cada 3 anos
 
 
Não requer preparo intestinal
A colonoscopia será necessária se anormal
 
 
Nenhuma dieta pré-teste ou mudanças de medicação são necessárias
 
Menor sensibilidade na detecção de pólipos e alguns cânceres
 
 
Coleta feita em casa
Pode ter resultados falso-positivos
 
 
 
Ainda não disponível no Brasil
Colonoscopia
Permite biópsias e remoção de pólipos
 
Requer preparo intestinal
 
Feita a cada 10 anos
É realizada com sedação; sendo necessário acompanhante.
Requer internação hospitalar em pacientes idosos
 
Pode diagnosticar outras doenças
 
Risco pequeno de sangramento, lacerações intestinais ou infecção
 
 
Geralmente avalia todo cólon
É mais cara
 
 
Pode perder pequenos pólipos
Colonografia por tomografia computadorizada (colonoscopia virtual)
 
Exame rápido e seguro
 
Requer preparo intestinal (realizado em casa, na véspera do exame)
 
Sem sedação, não necessita acompanhante Paciente pode trabalhar logo após o exame
Não é possível remover pólipos ou fazer biópsia durante o teste
 
É segura em pacientes que usam anticoagulantes, idosos e com comorbidades
A colonoscopia será necessária se anormal
Pode perder pequenos pólipos
 
 
Feita a cada 5 anos
 
Exposição à radiação (pequena)
 
 
 
Pode perder pequenos pólipos
 
Sigmoidoscopia flexível
Rápida
 
Pode ser desconfortável
 
 
Normalmente não requer preparação intestinal completa
 
Avalia apenas um terço do cólon
 
 
Sedação geralmente não usada
 
Não é possível remover todos os pólipos
 
Feita a cada 5 anos
 
Risco muito pequeno de sangramento, infecção ou laceração intestinal
 
 
 
A colonoscopia será necessária se anormal
 
 
 
Pode perder pequenos pólipos
 
 

 

Referências

 

American Cancer Society

https://www.cancer.org/cancer/colon-rectal-cancer/detection-diagnosis-staging/acs-recommendations.html

U.S. Preventive Services Task Force 

https://www.uspreventiveservicestaskforce.org/uspstf/recommendation/colorectal-cancer-screening

 

Chen CD, Yen MF, Wang WM, Wong JM, Chen TH. A case-cohort study for the disease natural history of adenoma-carcinoma and de novo carcinoma and surveillance of colon and rectum after polypectomy: implication for efficacy of colonoscopy. Br J Cancer. 2003 Jun 16;88(12):1866-73.


Referências

Serrated polyposis: rapid and relentless development of colorectal neoplasia

Daniel L Edelstein, Francis M Giardiello — Publicado em 05/04/2012Gut

DOI: 

10.1136/gutjnl-2011-300514

Evidence-based Guidelines for Precision Risk Stratification-Based Screening (PRSBS) for Colorectal Cancer: Lessons learned from the US Armed Forces: Consensus and Future Directions

Itzhak Avital, Alexander Stojadinovic — Publicado em 01/03/2013Journal of Cancer

Tags

RASTREAMENTO
CÂNCER COLORRETAL
FIT
COLONOSCOPIA
COLONOGRAFIA
TOMOGRAFIA

Angela Hissae Motoyama Caiado

Radiologia e Diagnóstico por imagem

CRM: 100163-SP

Médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Residência Médica em Radiologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Especialização em Radiologia Abdominal pelo Hospital das Clínicas da Faculdad​e de Medicina da USP. Médica assistente e pesquisadora no Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.​

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