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Dialética do Envelhecimento

Carlos Eduardo Pompilio

Carlos Eduardo Pompilio

29/09/2022

Atualizado em16/11/2022

4 min
Dialética do Envelhecimento

Simone de Beauvoir tem vários livros incomuns, mas a obra intitulada “A Velhice” (Figura 1), publicada em 1970, quando a filósofa francesa contava com 62 anos, é especial. Já o título pode chamar a atenção do leitor, embora devamos lembrar que o termo “idoso” foi alçado a descritor do segmento mais sênior da população apenas na década de 80. Tal movimento ocorre como parte do reconhecimento iniciado por esta e outras obras no intuito de resgatar a dignidade da parcela da população considerada "improdutiva" na matriz política neoliberal que vicejou naquele momento histórico mundial, atravessando discursos sobre o envelhecimento até hoje. Dito isso, o texto é seminal e influenciou vários estudos posteriores na área da gerontologia e psicologia do envelhecimento.

 

Figura 1. Capa do livro "A velhice" (1970), 2ª edição.

 

Admitir o envelhecimento

Há um momento, na segunda parte do livro, chamada “O Ser-no-mundo”, em que Beauvoir escreve:

 

“A velhice é particularmente difícil de assumir, porque sempre a consideramos uma espécie estranha: será que me tornei, então, uma outra, enquanto permaneço eu mesma?”[1].

 

Tal reflexão chama a atenção para o fenômeno da admissão de nosso próprio envelhecimento. E por que isso é importante? Segundo Karla Giacomin, médica geriatra e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Saúde Pública e Envelhecimento (Nespe) da Fiocruz Minas, deveríamos refletir sobre os nossos sentimentos frente ao envelhecimento, bem como sobre de que maneira eles influenciam nossas relações com pessoas idosas. “Afinal”, diz a pesquisadora, “cada um lida com a pessoa idosa conforme seu próprio conceito de envelhecimento e de morte”[2].

 

Envelhecimento no Brasil

Segundo a agência de notícias do IBGE, em relatório publicado em 22/07/2022, a população brasileira vem envelhecendo a passos rápidos: “Entre 2012 e 2021, o número de pessoas abaixo de 30 anos de idade, no país, caiu 5,4%, enquanto houve aumento em todos os grupos acima dessa faixa etária no período. Com isso, pessoas de 30 anos ou mais passaram a representar 56,1% da população total em 2021. Esse percentual era de 50,1% em 2012”. A parcela de pessoas com 60 anos ou mais saltou, neste mesmo período, de 11,3% para 14,7% da população. Em números absolutos, esse grupo etário passou de 22,3 milhões para 31,2 milhões, crescendo 39,8%”. Diante disso, mesmo que esse aumento vegetativo seja expressivo, temos de convir que ainda são deficitárias as políticas públicas que buscam dignificar, com bem-estar e qualidade de vida, o envelhecimento dos brasileiros.

 

A dialética do envelhecimento

Minha tendência é pensar que a preparação da sociedade para esse tipo de desafio também passa pelo preparo individual de cada um. O conceito de envelhecimento, para Simone de Beauvoir, é “uma relação dialética entre meu ser para outrem - tal como ele se define objetivamente - e a consciência que tomo de mim mesma através dele. Em mim, é o outro que é idoso, isto é, aquele que sou para os outros: e esse outro sou eu”[3]. A autora ainda acrescenta adiante:

 

“[H]á uma contradição insolúvel entre a evidência íntima que garante nossa permanência e a certeza objetiva de nossa metamorfose. Só podemos oscilar de uma a outra, sem jamais conciliá-las firmemente”[4].

 

Essa relação dialética, contraditória, entre o que sou para os outros e como me vejo, deve ser a força motriz da mudança, não a fonte de sua inércia. Ou seja, a oscilação entre uma coisa e outra não deve ser substituída por cirurgias plásticas, exercícios em excesso ou drogas supostamente rejuvenescedoras, numa tentativa de permanência; mas por uma consciência senescente de si em constante mudança, que se reconhece em outros e identifica os mais frágeis. Este, talvez, o principal fundamento de uma sociedade mais justa.

 

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Reflexão

Aos profissionais da saúde que assistem indivíduos nesse “estado dialético do envelhecimento” seria importante compreender que a dialética , nas mãos de Hegel, um de seus proponentes mais famosos, é uma teoria da transformação e uma teoria do movimento. Em outras palavras, é uma teoria da transformação porque parte da ideia de que as transformações são motivadas por contradições que, por sua vez, provocam crises, e essas crises permitem a produção de um outro estado de equilíbrio[5]; assim como o paciente que, ao recuperar-se de uma doença, não volta ao estado anterior, mas tem agora em sua existência a vivência que o estado mórbido lhe imprimiu.

 

Tal compreensão permite, por exemplo, conduzir a ansiedade provocada pela contradição entre o “eu sinto” e o “eu sou” (ou entre a “evidência de nossa permanência” e a “certeza de nossa metamorfose”, como bem disse Beauvoir) para uma possível consciência sobre a nova realidade circunstancial. Talvez mais serena.

 

Permite também evitarmos ser prescritivos demais. Invasivos demais. Estáticos em situações que exigem a fluidez do movimento para serem concebidas e aceitas, não as certezas calcificadas e inflexíveis já vividas e experimentadas, as quais, por essa mesma razão, já não são tangíveis, exceto por uma memória que insiste em falhar e preencher tais falhas com fantasias carregadas de desejos e frustrações. Talvez a resposta para o enigma proposto por Simone de Beauvoir seja assumir, sem titubear, a inconciliação dos estados. Talvez se perca uma certa tranquilidade inautêntica. Contudo, ao apreciarmos essas contradições, é fato: tornamo-nos quem realmente somos. E isso não tem preço.

 

_____________________________________________________

[1] Beauvoir, S. A Velhice. 2ª edição. Ed. Nova Fronteira. Trad. Maria Helena Franco Martins, 2018, p. 297.

[2] Radis Fiocruz (Ensp) 01/10/2019. Entrevista com Karla Giacomin. Acessado em 14/09/2022 https://radis.ensp.fiocruz.br/index.php/home/entrevista/a-velhice-nao-comeca-aos-60-anos

[3] Beauvoir, S ___

[4] Idem, p. 304.

[5] Tal linha de raciocínio é tributária das ideias que Vladimir Safatle desenvolve em seu livro “Dar corpo ao impossível: o sentido da dialética a partir de Theodor Adorno. Belo Horizonte: Autêntica, 2019”. 

 

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GERIATRIA
Carlos Eduardo Pompilio

Carlos Eduardo Pompilio

Clínica Médica

CRM: 67539-SP

Médico formado pela Universidade de São Paulo, com residência em Clínica Médica e doutorado em Anatomia Patológica pela USP. Médico assistente do Departamento de Clínica Médica, Disciplina da Clínica Geral do Hospital das Clínicas da FMUSP. Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisa em Literatura, Narrativa e Medicina (GENAM) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

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