Novos antibióticos à vista: entenda quais são e suas ações

Carlos Eduardo Pompilio

Carlos Eduardo Pompilio

12/09/2022

Atualizado em15/12/2021

4 min

Destaques

  • A resistência bacteriana aos antibióticos é um problema crônico que surgiu desde a descoberta dos antimicrobianos nos anos 1940.

  • Houve uma redução significativa no lançamento de novos antimicrobianos na última década

  • É muito importante que novas drogas sejam lançadas, mas é preciso garantir o acesso a elas bem como seu uso judicioso.

Já em julho de 2020, a Organização Mundial da Saúde publicou um alerta em sua newsletter sobre a ameaça cada vez maior representada pela resistência bacteriana aos antibióticos: “Um número crescente de infecções vem se tornando cada vez mais difícil de tratar, pois os antibióticos usados se tornam menos eficazes”, ressalta o artigo.


Há, portanto, uma necessidade premente de novos agentes antimicrobianos para o enfrentamento das cepas multirresistentes. Uma revisão recente da revista Infection por Al-Tawfiq et al. (ver referência abaixo) relacionou novos antibióticos que estavam em fase III de pesquisa ou já aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) estadunidense ou agência europeia de medicamentos (EMA). Foram também incluídos ensaios clínicos da China, Índia e Japão. Trinta e sete novas drogas foram selecionadas. Quase todas as classes foram contempladas com novos membros. Neste artigo, falaremos de algumas.


Delafloxacina

Delafloxacina é uma fluoroquinolona aprovada pelo FDA em junho de 2017 e pela agência Europeia de Medicamentos (EMA) para o tratamento de infecções bacterianas agudas da pele e da estrutura da pele. Delafloxacina inibe a DNA girase (topoisomerase II) e a topoisomerase IV. Tem uma alta concentração pulmonar e é principalmente (65%) excretada inalterada na urina. Tem um baixa concentração inibitória mínima (MIC) contra S. pneumoniae e S. aureus (incluindo MRSA). Algumas cepas de S. pneumoniae resistentes à levofloxacina são suscetíveis a delafloxacina. Delafloxacina também é ativa contra Pseudomonas aeruginosa e anaeróbios. A eficácia e a segurança da delafloxacina na pneumonia bacteriana adquirida na comunidade (CABP) foi comparada com a moxifloxacina em um estudo de fase III (DEFINE-CABP) e o resultado foi uma resposta clínica inicial semelhante de cerca de 89% em cada braço.


Meropenem / vaborbactam

Meropenem / vaborbactam é uma combinação fixa de meropenem e vaborbactam aprovada pelo FDA em agosto de 2017 para tratamento de infecções do trato urinário complicadas (cUTI), incluindo pielonefrite e pela EMA em setembro de 2018 para tratamento de cUTI, incluindo pielonefrite, infecções intra-abdominais complicadas (cIAI), pneumonias bacterianas adquiridas em ambiente hospitalar (HABP), pneumonias bacterianas associadas à ventilação mecânica (VABP).Ο vaborbactam não possui atividade antibacteriana e sua função principal é proteger o meropenem da degradação por Beta-lactamases, especialmente a Klebsiella pneumoniae carbapenemase (KPC). Entretanto, não tem atividade contra OXA-48 e metalo-β-lactamases (MBL), nem contra P. aeruginosa resistente a carbapenem. Estudos comparando meropenem – vaborbactam com piperacilina– tazobactam não mostraram inferioridade da nova droga.


Imipenem-cilastatina + Relebactam

É uma reciclagem do primeiro carbapenêmico de sucesso. A cilastatina é, como sabido, um inibidor da secreção renal do imipenem. O relebactam, por sua vez, é um inibidor das beta-lactamases ativo contra a Classe A (incluindo ESBL e KPC) e classe C (AmpC). Tem atividade contra Enterobacteriaceae produtoras de ESBL, KPC, Enterobacteriaceae resistentes a carbapenêmicos (CRE), e possivelmente para P. aeruginosa também resistentes a carbapenêmicos. Não tem atividade contra os produtores de MBL e OXA-48, Acinetobacter baumannii ou Stenotrophomonas maltophilia.


Plazomicina

Plazomicina é um novo aminoglicosídeo aprovado pelo FDA em junho de 2018 e pela EMA em março de 2018 para tratar cUTI. A plazomicina tem o mesmo mecanismo de ação básico dos aminoglicosídeos ligando-se à subunidade ribossômica 30S e inibindo a síntese de proteínas em um modo dependente da concentração. Tem atividade contra Enterobacteriaceae produtoras de ESBL, CRE, MRSA e organismos que produzem enzimas modificadas contra aminoglicosídeos. Como outros antibióticos da mesma classe, a plazomicina está associada a nefrotoxicidade, ototoxicidade e dano fetal em grávidas mulheres.


Eravaciclina

A eravaciclina é uma nova fluorociclina do grupo das tetraciclinas e, como tal, interrompe a síntese de proteínas bacterianas ao se ligar à subunidade ribossômica 30S, evitando a incorporação de resíduos de aminoácidos em cadeias de peptídeos. Em geral, a eravaciclina é bacteriostática contra bactérias gram-positivas (por exemplo, Staphylococcus aureus e Enterococcus faecalis); no entanto, a atividade bactericida in vitro foi demonstrada contra certas cepas de Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae. Eravaciclina tem atividade contra MRSA, VRE, ESBL Enterobacteriaceae, A. baumannii, e CRE, mas não tem atividade contra P. aeruginosa e Burkholderia cenocepacia.


Cefiderocol

O cefiderocol é uma droga antibacteriana do grupo das cefalosporinas e exerce um mecanismo de ação semelhante a outros antibióticos β-lactâmicos. Entretanto, diferentemente de outros agentes desta categoria, o cefiderocol é um sideróforo capaz de sofrer transporte ativo para a célula bacteriana através dos canais de ferro. É, portanto, o primeiro de uma nova classe de cefalosporinas (5ª geração?). O cefiderocol provou ser eficaz in vitro contra cepas multirresistentes, incluindo produtores de β-lactamase de espectro estendido e bactérias produtoras de carbapenemase (CRE, CRPA, and CRAB), S. maltophilia e Burkholderia cepacia.


Sulopenem

O sulopenem é um novo tiopenem β-lactâmico desenvolvido como pró-fármaco (sulopenem-etzadroxil) para terapia de ITU e cIAI. Tem boa atividade contra Enterobacteriaceae produtoras de ESBL. Um estudo de fase III (SURE 1) irá avaliar a eficácia e segurança da droga contra ciprofloxacina em mulheres com ITU não complicada. Tem a vantagem de poder ser usado via oral.


Solitromicina

A solitromicina é um novo macrolídeo de quarta geração, conhecido como fluorocetolida, que inibe a síntese de proteínas ao ligar-se aos ribossomos bacterianso. Tem atividade contra pneumococo resistente a macrolídeos, H. Influenzae e patógenos atípicos com indicação potencial para uso em pneumonias comunitárias.

Existem outras drogas promissoras ainda em investigação. Entretanto, é sempre bom lembrar, estaremos sempre um passo atrás em relação ao desenvolvimento dos mecanismos de resistência aos antimicrobianos pelos patógenos. Nenhum desenvolvimento farmacológico será mais eficaz que a prescrição judiciosa e consciente dos antibióticos.


Como referência extra, consultei também o excelente site sobre drogas: https://go.drugbank.com/


Referências

Antibiotics in the pipeline: a literature review (2017–2020)

Jaffar A. Al-Tawfiq, Patricia Schlagenhauf — Publicado em 05/10/2021Infection

DOI: 

10.1007/s15010-021-01709-3

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ANTIBIÓTICOS
Carlos Eduardo Pompilio

Carlos Eduardo Pompilio

Clínica Médica

CRM: 67539-SP

Médico formado pela Universidade de São Paulo, com residência em Clínica Médica e doutorado em Anatomia Patológica pela USP. Médico assistente do Departamento de Clínica Médica, Disciplina da Clínica Geral do Hospital das Clínicas da FMUSP. Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisa em Literatura, Narrativa e Medicina (GENAM) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

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