Uso de beta-bloqueadores de ação ultracurta na sepse

Fernando Salvetti Valente

Carlos Eduardo Pompilio

13/08/2021

Atualizado em13/08/2021

1 min

Há uma ideia, baseada em conceitos fisiológicos, de que o uso de betabloqueadores na sepse poderia ter algum benefício. Existem alguns mecanismos propostos para explicar isso, como melhora da eficiência cardiovascular. O raciocínio fisiopatológico é um grande fomentador de perguntas clínicas que precisam ser testadas. Após uma nova proposta é preciso demonstrar sua associação a algum desfecho clínico relevante. Há alguns ensaios clínicos que olharam para esta questão.

A revisão sistemática feita por Hasegawa D e cols tentou responder a esta questão. Foram incluídos 7 ensaios clínicos, com um total de 613 pacientes adultos com sepse em três países (China, Itália e Japão). O desfecho primário de interesse foi mortalidade em 28 dias e os secundários foram: níveis de ácido lático, frequência cardíaca, pressão arterial média, dose de noradrenalina, índice cardíaco, índice de volume sistólico e leucograma. Os critérios de inclusão de alguns dos estudos foram: necessidade de vasopressor e/ou frequência cardíaca maior que 95 ou 100 após a ressuscitação volêmica inicial.

Houve risco de viés de desempenho (quatro dos estudos) que tem relação com a falta de cegamento. Em relação ao desfecho primário, foi encontrado um risco relativo de 0,68 (intervalo de confiança 0,54-0,85), com baixa heterogeneidade. Não foi encontrada diferença em pressão arterial média, dose de noradrenalina e índice cardíaco. Tais dados sugerem tratar-se de uma hipótese interessante a ser mais explorada, porém o resultado desta metanálise parece ser muito bom para ser verdade, principalmente em relação à magnitude do efeito - redução relativa de 32% em mortalidade é comparável à eficácia de betabloqueador em insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida, por exemplo. Idealmente, a evidência deve ser replicada em um ensaio clínico grande, multicêntrico, com uma população diversa, com mortalidade sendo o desfecho primário.


Referências

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33434497/

Effect of Ultrashort-Acting β-Blockers on Mortality in Patients With Sepsis With Persistent Tachycardia Despite Initial Resuscitation

Daisuke Hasegawa, Osamu Nishida — Publicado em 10/01/2021Chest

DOI: 

10.1016/j.chest.2021.01.009

Tags

BETA-BLOQUEADOR
SEPSE

Fernando Salvetti Valente

Clínica Médica

CRM: 162442-SP

Médico formado pela Unicamp, residência em Clínica Médica pela Unicamp e ano adicional pela FMUSP. Preceptoria em Clínica Médica (Medicina Interna) pelo Hospital das Clínicas da FMUSP. Atualmente é médico das Disciplinas de Emergências Clínicas e Clínica Geral do HCFMUSP, além de Hospitalista no Hospital Sírio-Libanês.

Carlos Eduardo Pompilio

Carlos Eduardo Pompilio

Clínica Médica

CRM: 67539-SP

Médico formado pela Universidade de São Paulo, com residência em Clínica Médica e doutorado em Anatomia Patológica pela USP. Médico assistente do Departamento de Clínica Médica, Disciplina da Clínica Geral do Hospital das Clínicas da FMUSP. Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisa em Literatura, Narrativa e Medicina (GENAM) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Parcerias:

logo GrupoFleury
logo MIT
logo Philips
logo Saude Id
logo BricNet
logo Cannect
logo Hospital Sírio-Libanês

A Pupilla

Siga nossas redes