Últimos dias para aproveitar os melhores descontos do ano 

0

0

Dias

0

0

Horas

0

0

Minutos

0

0

Segundos


As desigualdades do câncer infantil

Flávia Almeida

03/08/2022

Atualizado em04/08/2022

7 min
As desigualdades do câncer infantil

Câncer infantil


O câncer infantil representa um significativo e relevante desafio de saúde pública, com desigualdades profundas. Todos os dias, mais de 1.000 crianças são diagnosticadas com câncer no mundo. Isso representa uma jornada de mudança de vida para as famílias.

O câncer infantil é curável para a grande maioria das crianças quando serviços essenciais de diagnóstico, tratamento e cuidados de suporte estão disponíveis.

No entanto, existe uma enorme desigualdade nos resultados dentro de cada país e entre os diversos países do mundo. Nos últimos anos, a taxas de sobrevida, em 5 anos, para crianças com câncer (normalmente equivalendo à cura) subiu para 80% na maioria dos países de alta renda (PAR). Mas, a situação é muito diferente para crianças com câncer em países de baixa e média renda (PBMR), nos quais essa taxa é de apenas 30% (Tabela 1).


Tabela 1. Incidência e cura estimada do câncer infantil por ano em países de diferentes categorias de renda de acordo com o Banco Mundial.

PBR: países de baixa renda, PBMR: países de baixa e média renda, PAMR: países de alta e média renda, PAR: países de alta renda.




Cânceres mais comuns em crianças


  • Leucemias;
  • Tumores cerebrais;
  • Linfomas;
  • Sarcomas ósseos e de partes moles;
  • Tumores de células germinativas.


Estima-se que ocorram 429.000 novos casos de câncer infantil a cada ano (Tabela 1), com uma incidência de 170 por milhão nos PAR e metade nos PBMR (Tabela 1), o que mostra uma falha nos registros e diagnósticos destes países.

Além disso, cerca de 89% das crianças do mundo (de 0 a 19 anos) vivem em PBMR, e respondem por 95% da mortalidade por câncer nessa faixa etária (Tabela 1).

Infelizmente, a falha no tratamento é comum nos PBMR devido a muitos fatores, incluindo falha no diagnóstico, o tratamento inacessível, o abandono de tratamento, a toxicidade do tratamento, a recidiva da doença, a falta de centros especializados etc. Estes fatores também aumentam os custos e a morbidade do tratamento.




Iniciativa global da OMS para o câncer infantil


É nesse contexto que a Organização Mundial da Saúde (OMS), juntamente com o St. Jude Children's Research Hospital, trabalhando com outros parceiros globais, lançou a Iniciativa Global da OMS para o Câncer Infantil em 2018, para apoiar governos, parceiros e comunidades a alcançar o melhor tratamento de câncer para todas as crianças. O objetivo desta Iniciativa é alcançar pelo menos 60% de sobrevida para crianças com câncer em todo o mundo, com o objetivo de salvar um milhão de vidas a mais até o ano de 2030, garantindo que o sofrimento seja reduzido para todas as crianças. A Iniciativa reúne as partes interessadas de todos os setores em direção a um objetivo compartilhado, usando a estrutura CureAll como a abordagem operacional coordenada.

Considerando as enormes desigualdades enfrentadas nos diversos países, são pontos-chave fundamentais para melhora desta situação:

- Campanhas de conscientização para a população: resultam em uma diminuição significativa na proporção de pacientes com diagnóstico tardio.

- Equipes de saúde devidamente treinadas, equipamentos de imagem e de laboratório disponíveis.

- Estratégias para reduzir o abandono do tratamento. O abandono chega a 50% em países de baixa renda. Fatores de risco para abandono incluem a pobreza, o custo local do tratamento, escolaridade dos pais, distância do centro de câncer, tipo de câncer e sexo feminino.

- Centros especializados para tratamento das crianças com câncer.

- Políticas nacionais de coleta e análise de dados para monitoramento e avaliação, para alocação de recursos para infraestrutura de acordo com a epidemiologia local. Além de aumentar a sobrevida por si só, esforços coordenados de políticas para crianças com câncer podem melhorar qualidade de vida dos pacientes e reduzir o sofrimento, como exemplo, garantindo o acesso à morfina para a dor, bem como cuidados paliativos e apoio psicossocial.

- Acesso a medicamentos essenciais. A OMS recomenda uma Lista de Medicamentos Essenciais que inclui o tratamento para câncer para adolescentes e adultos desde 1977 e para crianças desde 2007. Outra complexidade é garantir o fornecimento de medicamentos de alta qualidade.

- Ciência e desenvolvimento de medicamentos para todos, incluindo, principalmente parcerias nos PBMR. A maioria das crianças com câncer em PAR está matriculada em pesquisas e ensaios clínicos multicêntricos, e isso tem sido descrito como um fator chave que contribui para aumento das taxas de sobrevida.




Panorama de Oncologia Pediátrica no Brasil


Em 2021, o Instituto Desiderata lançou o Panorama de Oncologia Pediátrica no Brasil, trazendo informações regionais e estaduais sobre o perfil do câncer infantojuvenil, o acesso ao tra­tamento e o monitoramento da informação no país.

Na classificação por tipo de câncer, o diagnóstico preciso dos casos ainda é um desafio no país, com 8,1% dos diagnósticos clas­sificados como neoplasias não especificadas. Nos Estados Unidos, esse valor é inferior a 1%.

Em relação ao diagnóstico histopatológico, um importante indica­dor positivo do grau de certeza de um tumor, o cenário nacional é melhor: 88,9% dos casos tiveram a confirmação microscópica, mas com grande divergência entre regiões e estados do país, sendo o maior percentual na região Norte (91,4%) e o menor no Centro-Oeste (81,5%). Entre os estados, o percentual mais baixo foi observado em Goiás (36,7%), e os maiores (100%), em Amapá e Roraima.

Outro ponto em destaque é o alto índice de tratamento de adolescen­tes em hospitais não habilitados: 43% dos pacientes entre 15 e 19 anos foram tratados em hospitais sem habilitação em oncologia pediátrica.

A mortalidade geral por câncer é 43,4/milhão, com a maior taxa entre adolescentes (51,1/milhão), seguida de crianças de 0 a 4 anos (46,9/ milhão). As taxas mais altas são de crianças e adolescentes indígenas: 67,7/ milhão. Na região Norte, a taxa chega a 86,8 óbitos/ mi­lhão.

Um aspecto importante no cuidado do câncer infantojuvenil é o acesso ao tratamento oncológico. Nas regiões Norte e Centro-Oeste, observa-se o maior deslocamento de usuários em busca de assistência em estados fora da região de residência, pelo menor número de serviços habilitados e médicos com habilitação em oncologia pediátrica. São Paulo é o estado que mais recebe crianças e adolescentes vindas de outros estados para o tratamento de câncer: 70,4%.




Ponto de vista


O pediatra tem papel fundamental como facilitador do diagnóstico precoce. Documentos do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria ressaltam a importância e os sinais e sintomas de alerta para o diagnóstico precoce do câncer na infância. Entretanto, conforme discutido acima, outros pontos são fundamentais para melhorarmos a desigualdade em nosso país, com investimentos em políticas sociais e de saúde.


Referências

1.     Lam CG, Howard SC, Bouffet E, Pritchard-Jones K. Science and health for all children with cancer. Science. 2019 Mar 15;363(6432):1182-1186. doi: 10.1126/science.aaw4892. PMID: 30872518.

2.     World Health Organization. WHO GLOBAL INITIATIVE FOR CHILDHOOD CANCER: AN OVERVIEW. Disponível em: https://www.who.int/publications/m/item/global-initiative-for-childhood-cancer

3.     World Health Organization. CureAll framework: WHO Global Initiative for Childhood Cancer. Increasing access, advancing quality, saving lives. 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240025271

4.     Instituto Desiderata. Panorama de Oncologia Pediátrica no Brasil, 2021. Disponível em: https://desiderata.org.br/panorama-da-oncologia-pediatrica-no-brasil/

5.     Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temáticas. Protocolo de diagnóstico precoce do câncer pediátrico, 2017. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_diagnostico_precoce_cancer_pediatrico.pdf

6.     Sociedade Brasileira de Pediatria. Epidemiologia e diagnóstico precoce do câncer infantojuvenil. 2021.

7.     Sociedade Brasileira de Pediatria. Diagnóstico precoce das leucemias. 2022.




Você também pode se interessar por:

1. Aprovação da Coronavac para crianças de 3 a 5 anos pela ANVISA e orientações do Programa Nacional de Imunização

2. Por que as pessoas continuam morrendo por câncer colorretal?




Desconto especial de lançamento:

Curso Oncologia Translacional na prática clínica

Inscrições abertas! Inscreva-se.


Tags

CÂNCER
PEDIATRIA

Flávia Almeida

Infectologia

CRM: 91434-SP

Médica formada pela Universidade de Mogi das Cruzes, com residência em Pediatria e Infectologia Pediátrica pela Santa Casa de São Paulo, doutorado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Professora assistente de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Médica assistente da Infectologia Pediátrica do Departamento de Pediatria da Santa Casa de São Paulo.

Black November Card

Parcerias:

logo GrupoFleury
logo MIT
logo Philips
logo Hospital Sírio-Libanês
logo Saude Id
logo Cannect
logo BricNet

A Pupilla

Siga nossas redes