Miopia em crianças e adolescente: uma epidemia dentro da pandemia da COVID-19

Flávia Almeida

12/09/2022

Atualizado em23/12/2021

3 min

Destaques

  • A prevalência da miopia e alta miopia está aumentando globalmente em taxas alarmantes. A Organização Mundial de Saúde estima que em 2050 metade da população poderá ser míope (Figura 1)

Figura 1. Número de casos (azul) e prevalência (vermelho) de miopia no mundo entre 2000 e 2050. (Adaptado Holden B, Mariotti S, Kocur I, et al The impact of myopia and high myopia: report of the Joint WHO–Brien Holden Vision Institute, Global Scientific Meeting on Myopia. 2015.)

  • Este é um fato muito preocupante, pois além de trazer custos individuais e para o sistema de saúde, a alta miopia está associada a condições patológicas, como descolamento de retina, catarata e glaucoma, podendo levar à cegueira.
  • Já está bem estabelecido que passar mais tempo ao ar livre durante a infância diminui o risco de desenvolver miopia e pode atrasar a progressão da miopia. Por outro lado, a duração e a intensidade de atividades que utilizam a visão de perto estão associadas à miopia. Desta forma, a pandemia da COVID-19, com o confinamento de milhões de crianças e aulas online, tem levado a uma epidemia de miopia. 


Como foi feito o estudo?

Este estudo investigou a associação do confinamento domiciliar durante a pandemia da COVID-19 com o desenvolvimento de miopia em crianças em idade escolar na China.

Aproximadamente 125.000 crianças de 6 a 13 anos foram avaliadas, com photoscreening* na escola de 2015 a 2020. 

*Photoscreening é uma técnica automatizada com uma câmera especial que usa o reflexo vermelho para ajudar a identificar erros de refração e outras anormalidades nos olhos. É rápido e fácil de aprender, porém, ainda indisponível em larga escala no Brasil. 


O que foi encontrado?

Os autores observaram que entre 2015 e 2019, a prevalência de miopia aumentou, com predomínio no sexo feminino. 

Houve um aumento substancial e significativo, em 2020 (comparado aos anos anteriores), para crianças de 6 (21,5% x 5,7%), 7 (26,2% x 16,2%), e 8 (37,2% x 27,7%) anos. Em crianças de 9 a 13 anos, este aumento não foi observado. 


O que podemos discutir?

Com estes dados, uma das hipóteses é que crianças menores são mais sensíveis aos estímulos ambientais que desencadeiam miopia do que crianças maiores. 

Já nas crianças maiores, de 9 a 13 anos, a prevalência total de miopia já era substancial antes de 2020. Na Ásia, há uma alta proporção de miopia em crianças, com estimativa de 80% aos 13 anos. Além disso, crianças maiores já tinham mais tempo de uso de telas e menor tempo ao ar livre antes da pandemia.


Apesar de o estudo ter diversas limitações, como o uso de medidas de refração não cicloplégicas, a falta de dados de biometria ocular, o número de crianças avaliadas em cada ano do estudo, os dados são muito relevantes, trazendo um alerta importante.


O Brasil é um dos países com maior tempo de suspensão das aulas presenciais, levando as crianças a passarem horas na frente das telas tanto para atividades escolares, como para atividades recreativas. Além disso, houve uma diminuição das atividades ao ar livre, incluindo esportes. A pandemia da COVID-19 trouxe uma mudança no estilo de vida. Estar atento a sinais e sintomas de miopia neste momento é fundamental nas consultas pediátricas, bem como orientar atividades ao ar livre e encaminhar para uma avaliação oftalmológica.


A Sociedade Brasileira de Pediatria tem um manual de orientação de saúde de crianças e adolescentes na era digital, com pontos importantes, que devem ser estimulados, especialmente com a volta às aulas presenciais:


  • Evitar a exposição de crianças menores de 2 anos às telas, sem necessidade (nem passivamente!) 
  • Crianças com idades entre 2 e 5 anos, limitar o tempo de telas ao máximo de 1 hora/dia, sempre com supervisão de pais/cuidadores/ responsáveis. 
  • Crianças com idades entre 6 e 10 anos, limitar o tempo de telas ao máximo de 1-2 horas/dia, sempre com supervisão de pais/responsáveis. 
  • Adolescentes com idades entre 11 e 18 anos, limitar o tempo de telas e jogos de videogames a 2-3 horas/dia, e nunca deixar “virar a noite” jogando. 
  • Oferecer alternativas para atividades esportivas, exercícios ao ar livre ou em contato direto com a natureza, sempre com supervisão responsável. 


Resumindo em pontos:


  • Houve um aumento substancial da miopia em crianças e adolescentes nos últimos anos, acentuado pelo confinamento durante a pandemia da COVID-19.
  • Estar atento aos sinais e sintomas de miopia, bem como fazer uma avaliação oftalmológica de crianças e adolescentes é fundamental.

Referências

Progression of Myopia in School-Aged Children After COVID-19 Home Confinement

Jiaxing Wang, Xuehan Qian — Publicado em 14/01/2021JAMA Ophthalmology

DOI: 

10.1001/jamaophthalmol.2020.6239

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PEDIATRIA
MIOPIA EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Flávia Almeida

Infectologia

CRM: 91434-SP

Médica formada pela Universidade de Mogi das Cruzes, com residência em Pediatria e Infectologia Pediátrica pela Santa Casa de São Paulo, doutorado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Professora assistente de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Médica assistente da Infectologia Pediátrica do Departamento de Pediatria da Santa Casa de São Paulo.

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