Poliomielite – Atenção à cobertura vacinal

Flávia Almeida

19/03/2022

Atualizado em19/03/2022

4 min

A poliomielite (pólio) é uma doença viral altamente infecciosa que afeta principalmente crianças menores de 5 anos. O vírus é transmitido de pessoa para pessoa, pela via fecal-oral e se multiplica no intestino, podendo invadir o sistema nervoso e causar paralisia.

A infecção pelo poliovírus selvagem apresenta-se sob diferentes formas clínicas:

• Forma inaparente ou assintomática. Ocorre em 90 a 95% das infecções.

• Forma abortiva – caracteriza-se por sintomas inespecíficos: febre, cefaleia, tosse e coriza, e manifestações gastrointestinais, como vômito, dor abdominal e diarreia. Ocorre em cerca de 5% dos casos.

• Forma meningite asséptica – no início, apresenta-se com as mesmas características da forma abortiva. Posteriormente, surgem sinais de irritação meníngea e rigidez de nuca. Ocorre em cerca de 1% das infecções.

• Forma paralítica – acomete em torno de 1% dos casos, com: instalação súbita da deficiência motora, acompanhada de febre; assimetria, acometendo, sobretudo, a musculatura dos membros, com mais frequência os inferiores; flacidez muscular, com diminuição ou abolição de reflexos profundos na área paralisada; sensibilidade preservada; persistência de alguma paralisia residual (sequela), após 60 dias do início da doença.

Todas essas formas clínicas podem ser observadas, a depender do local de comprometimento do sistema nervoso central e, em alguns casos, podem apresentar quadro de paralisia grave e levar à morte.

Os poliovírus são vírus RNA de fita simples, classificados como membros da família Picornaviridae, gênero Enterovirus, e incluem 3 sorotipos: 1, 2 e 3. 

A doença paralítica aguda pode ser causada pelo poliovírus de ocorrência natural (selvagem) ou pelo vírus da vacina oral de poliovírus (VOP). Casos associados à vacina podem ocorrer em receptores da vacina ou em seus contatos, ou podem estar associados a poliovírus circulantes derivados de vacinas (cVDPVs).

Em 1988, a Assembleia Mundial da Saúde adotou uma resolução para a erradicação mundial da pólio, marcando o lançamento da Iniciativa Global de Erradicação da Pólio. Os casos de poliovírus selvagem diminuíram mais de 99% desde 1988, de cerca de 350.000 casos em mais de 125 países endêmicos para 175 casos relatados em 2019. 

Dos 3 sorotipos de poliovírus, o poliovírus selvagem 2 foi declarado erradicado em 2015 com o último caso detectado em 1999 na Índia, e o poliovírus selvagem 3 foi declarado erradicado em outubro de 2019 com o último caso ocorrendo na Nigéria em 2012. O poliovírus 1 agora é responsável por todos os casos de doença atribuíveis ao vírus selvagem. 

Desde 2000, a única fonte de doença do poliovírus 2 era relacionada ao vírus da vacina oral. Dessa forma, houve uma recomendação global da retirada do sorotipo 2 da VOP, que passou de trivalente (vírus 1, 2 e 3) à bivalente (vírus 1 e 3) em abril de 2016, encerrando assim todas as imunizações de rotina com vacinas orais contendo poliovírus 2. 

Em 25 de agosto de 2020, a Região Africana da Organização Mundial da Saúde (OMS) foi certificada como livre de poliovírus selvagem após 4 anos sem um caso. Com este marco histórico, 5 das 6 regiões da OMS, que representam mais de 90% da população mundial, estão agora livres do poliovírus selvagem, aproximando o mundo da erradicação global da pólio.

No Brasil, o último caso de infecção pelo poliovírus selvagem ocorreu em 1989, na cidade de Souza, na Paraíba. A estratégia adotada para a eliminação do vírus no país foi centrada na realização de campanhas de vacinação em massa com a VOP. Essa vacina propicia imunidade individual e de grupo na população em geral, com a disseminação do poliovírus vacinal no meio ambiente, em um curto espaço de tempo.

Após décadas de extensos programas de vacinação no mundo, a doença ficou restrita a dois países: Afeganistão e Paquistão, onde de 2017 até 2021 foram reportados 376 casos de poliovírus selvagem. No mesmo período ocorreram no mundo 2.289 casos poliomielite causada por vírus derivado de vacina (Figura 1).

Entretanto, em 17 de fevereiro de 2022, as autoridades de saúde de Malawi relataram um caso importado do Paquistão de poliovírus selvagem 1 (Figura 1). Há mais de cinco anos não eram reportados casos de poliovírus selvagem no continente africano, que estava considerado livre de pólio, desde agosto de 2020.

No dia 7 de março de 2022, um caso circulante de poliovírus 3 derivado de vacina (cVDPV3) foi confirmado em uma menina não vacinada de 3 anos e 9 meses em Israel (Figura 1). A menina desenvolveu paralisia flácida aguda e o poliovírus foi confirmado em suas fezes. O último caso de pólio no país havia sido notificado em 1989.

Figura 1. Casos de poliomielite causados pelo vírus selvagem (• vermelha) e pelo vírus vacinal (••• amrela, verde, roxa) nos últimos 12 meses. Fonte: Organização Mundial de Saúde, 15 de março de 2022.

Ressalto que qualquer caso de pólio deve ser um grande sinal de alerta para avaliação e ampliação da cobertura vacinal, única estratégia que pode evitar e eliminar a doença.

Desde 2015 as coberturas vacinais vêm caindo no Brasil, atingindo seus piores marcadores no período pandêmico. Em 2020 a cobertura vacinal por grupo alvo para poliomielite foi de 75,88% (Figura 2).

Figura 2. Coeficiente de incidência de Poliomielite e Cobertura Vacinal com a VOP, em Campanhas, Brasil, 1968 – 2021. Fonte: CGPNI/DEIDT/SVS/MS.

Estratégias do Ministério da Saúde para manutenção de coberturas vacinais elevadas e homogêneas são fundamentais neste momento. Bem como o papel do pediatra no reforço à importância da vacinação no atendimento de cada criança.

Referências

American Academy of Pediatrics. In: Kimberlin DW, Barnett ED, Lynfield R, Sawyer MH, eds. Red Book: 2021 Report of the Committee on Infectious Diseases. Itasca, IL: American Academy of Pediatrics: 2021.

World Health Organization. Poliomyelitis (polio). https://www.who.int/health-topics/poliomyelitis#tab=tab_1

Sociedade Brasileira de Pediatria. Nota de Alerta. Risco de poliomielite e sarampo, em um cenário de baixas coberturas vacinais no país. 18 de março de 2022.

Ministério da Saúde. Brasil. Poliomielite. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/p/poliomielite-1


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Flávia Almeida

Infectologia

CRM: 91434-SP

Médica formada pela Universidade de Mogi das Cruzes, com residência em Pediatria e Infectologia Pediátrica pela Santa Casa de São Paulo, doutorado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Professora assistente de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Médica assistente da Infectologia Pediátrica do Departamento de Pediatria da Santa Casa de São Paulo.

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