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Suspeita de poliomielite no Pará – o que já sabemos?

Flávia Almeida

11/10/2022

Atualizado em16/11/2022

9 min
Suspeita de poliomielite no Pará – o que já sabemos?

A Diretoria de Vigilância em Saúde – DVS/SESPA, através do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde- CIEVS/SESPA informa que no dia 05 de outubro de 2022, tomou conhecimento, por meio do Departamento de Epidemiologia da Secretaria de Saúde do estado do Pará, sobre um resultado positivo para Poliovírus através da metodologia de isolamento viral em fezes, de um caso notificado previamente como Paralisia Flácida Aguda (PFA).

 

Qual a descrição do caso?

De acordo com o levantamento das informações epidemiológicas, uma criança do sexo masculino, 03 anos, residente do município de Santo Antônio do Tauá, apresentou manifestação clínica no dia 21 de agosto de 2022.

 

As manifestações clínicas apresentadas foram:

  • Febre;
  • Dores musculares;
  • Mialgia;
  • Quadro de PFA, com comprometimento e redução motora nos membros inferiores, com progressão de 24 horas após receber as vacinas Tríplice Viral e poliomielite oral (VOP).

 

No dia 12 de setembro de 2022, a responsável pela criança compareceu à Unidade Básica de Saúde do município, onde relatou que, no dia 21 de agosto, um dia após a vacinação, a criança apresentou dor no membro inferior direito e deambulava mancando, e que, a partir do dia 10 de setembro, perdeu a força nos membros inferiores, não conseguindo se manter em pé.

 

A criança foi atendida ambulatorialmente, não chegou a ser internada, evoluindo bem, com recuperação da força muscular e permanece com discreta claudicação em membro inferior esquerdo.

Diante do quadro, foi feita a notificação de PFA.

 

Qual a definição de caso de Paralisia Flácida Aguda?

 

Caso suspeito

• Todo caso em indivíduos com menos de 15 anos de idade que apresente deficiência motora flácida, de início súbito, independentemente da hipótese diagnóstica inicial;

• Todo caso de deficiência motora flácida, de início súbito, em indivíduo de qualquer idade, com história de viagem a países com circulação de poliovírus nos últimos 30 dias que antecedam o início de déficit motor, ou contato no mesmo período com pessoas que viajaram para países com circulação de poliovírus selvagem e apresentaram suspeita diagnóstica de poliomielite.

 

Caso confirmado

• Poliomielite por poliovírus selvagem (WPV): caso de PFA, em que houve isolamento de poliovírus selvagem na amostra de fezes do caso, ou de um de seus contatos, independentemente de haver ou não sequela após 60 dias do início da deficiência motora.

 

• Poliomielite associada à vacina (PAV): caso de PFA em que há isolamento de vírus vacinal na amostra de fezes e presença de sequela compatível com poliomielite 60 dias após o início da deficiência motora. Há dois tipos:

  1. PFA, que se inicia entre 4 e 40 dias após o recebimento da vacina poliomielite oral (atenuada), e que apresenta sequela neurológica compatível com poliomielite 60 dias após o início do déficit motor;
  2. Caso de poliomielite associado à vacina por contato: PFA que surge após contato com criança que tenha recebido vacina oral poliomielite (VOP) até 40 dias antes. A paralisia surge de 4 a 85 dias após a exposição ao contato vacinado e o indivíduo apresenta sequela neurológica compatível com poliomielite 60 dias após o déficit motor.

 

Observação: Em qualquer das situações anteriores, o isolamento de poliovírus vacinal nas fezes e sequela neurológica compatível com poliomielite são condições imprescindíveis para que o caso seja considerado como associado à vacina.

 

• Poliovírus derivado vacinal (PVDV): caso de PFA com sequela 60 dias após o início do déficit motor e isolamento de PVDV. Para poliovírus tipo 1 e 3 com mutação no gene de codificação da proteína VP1 maior ou igual a 1,0% e igual ou superior a 0,6% para poliovírus tipo 2.

• Poliomielite compatível: caso de paralisia flácida aguda que não teve coleta adequada de amostra de fezes e que apresentou sequela aos 60 dias ou evoluiu para óbito ou teve evolução clínica ignorada.

 

Caso descartado

• Caso de PFA no qual não houve isolamento de poliovírus selvagem na amostra adequada de fezes, ou seja, amostra coletada até 14 dias do início da deficiência motora em quantidade e temperatura satisfatórias

 

Como é feita a notificação e investigação de um caso de PFA?

  1. Todo caso de PFA deve ser notificado imediatamente pelo serviço de saúde ou profissional de saúde que prestar atendimento no nível local à Vigilância Epidemiológica da cidade de atendimento do paciente e/ou de residência. A notificação deve ser registrada no SINAN, por meio do preenchimento e do envio da Ficha de Investigação de Paralisia Flácida Aguda/Poliomielite. Ressalta-se que os casos de paralisia ocular isolada e paralisia facial periférica não devem ser notificados e investigados.
  2. Considera-se, como unidade notificadora, atualmente, todo e qualquer hospital que disponha de unidade de internação para pessoas menores de 15 anos de idade, porém, diante do atendimento de paciente que atenda às definições de caso, todo e qualquer profissional de saúde ou serviço de saúde deverá proceder com a notificação.
  3. Os procedimentos de notificação e investigação para os casos encontrados através da busca ativa deverão ser exatamente os mesmos recomendados para os casos detectados mediante atendimento ao paciente;
  4. Por determinação do Ministério da Saúde, no final do ano de 2021, a informação de realização de busca ativa pelas unidades notificadoras passou a ser SEMANAL, ou seja, essas informações deverão ser encaminhadas aos municípios e, consequentemente, aos Grupos de Vigilância Epidemiológica – GVE correspondentes semanalmente.
  5. Todo caso de PFA deve ser investigado, nas primeiras 48 horas após o conhecimento, com o objetivo de coletar as informações necessárias para a correta classificação do caso, ou seja, deverá consistir no levantamento de dados clínicos e exames físicos realizados, dos antecedentes mórbidos e epidemiológicos. Essa medida visa subsidiar o processo de tomada de decisão quanto ao desencadeamento em tempo hábil das medidas de controle indicadas em cada situação.
  6. Todo serviço de saúde ou profissional de saúde que atender a um caso suspeito deverá proceder à coleta o mais rápido possível, de uma amostra de fezes, até, no máximo, no 14º dia do início da deficiência motora, a qual será encaminhada para o laboratório de referência da região;
  7. Deve-se proceder com a identificação da área de transmissão, através da visita domiciliar, para coletar dados complementares à ficha de investigação, bem como buscar outros casos, se necessário;
  8. Deve-se analisar cobertura vacinal contra pólio na área. Reforçar, se necessário, as atividades de vacinação na área;
  9. A investigação também consiste no levantamento de todos os dados necessários que se relacionem aos exames laboratoriais e complementares realizados, bem como proceder com o acompanhamento do caso em toda a sua evolução, reavaliações neurológicas e revisitas.
  10. O encerramento do caso deverá ser feito através da atualização da ficha no SINAN e com a retroalimentação das fontes notificadoras em até 60 dias após a notificação.



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Qual o diagnóstico diferencial das PFA?

A Tabela 1 mostra os diagnósticos diferenciais que devem ser investigados em casos de PFA.

 

Tabela 1. Lista de diagnósticos diferenciais a serem investigados em casos de PFA.

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As principais doenças a serem consideradas, no diagnóstico diferencial, são:

  • Síndrome de Guillain-Barré;
  • Mielite transversa (Tabela 2);
  • Meningite viral;
  • Meningoencefalite;
  • Outras enteroviroses (Enterovírus 71 e coxsackie vírus, especialmente do grupo A tipo 7).

 

Tabela 2. Elementos para o diagnóstico diferencial entre poliomielite, síndrome de Guillain-Barré e mielite transversa.

Fonte: Deidt/SVS/MS

 

Ressalta-se, que para o adequado esclarecimento diagnóstico, a investigação epidemiológica e a análise dos exames complementares são essenciais.

 

Qual o histórico vacinal da criança?

Foi verificado que estava incompleto e que a criança não recebeu as doses da VIP previamente, possuindo apenas duas doses de VOP, o que está em desacordo com as normas do Programa Nacional de Imunizações.

Uma das doses da VOP foi feita em 21 de agosto de 2022.

 

Qual a conduta tomada para investigação?

A Vigilância Epidemiológica municipal, informou que, ao tomar conhecimento, realizou visita domiciliar, onde notificou o caso como de PFA e solicitou pesquisa de Poliovírus nas fezes.

 

Qual o resultado da investigação laboratorial?

A coleta de fezes foi realizada no dia 16 de setembro para pesquisa de poliovírus.

O Instituto Evandro Chagas (IEC/SCTIE/MS), no dia 04 de outubro, confirmou o resultado positivo para poliovírus. Feitos o isolamento viral e a caracterização intratípica pelo Laboratório de Enterovírus (LEV) do IEC, o vírus foi caracterizado como o vírus vacinal Sabin Like 3.

 

Como interpretar esse resultado?

Quando uma criança recebe a VOP, ela excreta os vírus vacinais nas fezes por um período de até seis semanas. Portanto, esse resultado era esperado, uma vez que a coleta das fezes foi feita após 21 dias após o paciente receber a VOP.

 

Diante de um paciente com PFA e isolamento do poliovírus vacinal Sabin Like 3, foi feita a suspeita da poliomielite.

 

Entretanto ainda se aguarda o sequenciamento do vírus para analisar se houve alguma mutação e, principalmente, a evolução clínica da criança. A poliomielite só pode ser confirmada se a criança apresentar sequela neurológica compatível com a doença 60 dias após o início do déficit motor.

 

A informação atual é de que houve uma melhora clínica do quadro. Provavelmente e felizmente, não se trata de um caso de poliomitelite.

 

O Ministério da Saúde reforçou que o poliovírus Sabin Like 3 detectado nesse caso não tem caráter transmissível e não altera o cenário epidemiológico no território nacional, ou seja, não há casos confirmados de poliomielite no Brasil desde o ano de 1989 e o país segue com a certificação de eliminação da Poliomielite.

 

Qual a conduta tomada após o resultado?

Em função do resultado liberado, uma equipe da vigilância epidemiológica do estado se deslocou ao município para levantar e qualificar as informações, além de avaliar o quadro clínico da criança.

 

Outras hipóteses diagnósticas não foram descartadas, como Síndrome de Guillain Barré, portanto o caso segue em investigação conforme o que é preconizado no Guia de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde.

 

Conclusão

O último caso de poliomielite reportado no Brasil foi em 1989. No ano de 1994, o País recebeu a certificação de área livre de circulação do Poliovírus selvagem (PVS) da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

 

Neste momento, há um alerta para risco de reintrodução da poliomielite no Brasil, diante da cobertura vacinal estar abaixo da meta nos últimos anos.

 

Dessa forma, é fundamental manter as crianças menores de cinco anos de idade protegidas mediante elevadas e homogêneas coberturas vacinais, uma vigilância ativa e sensível das paralisias flácidas agudas em menores de 15 anos de idade, entre outras medidas.

 

Leituras recomendadas

Governo do Pará. Secretaria de Saúde Pública. Comunicação de risco. ASSUNTO: Detecção do vírus da poliomielite (SABIN LIKE 3) no estado do Pará. Número 03 – 05.10.2022.

Ministério da saúde. Instituto Evandro Chagas. Disponível em: https://www.gov.br/iec/pt-br/assuntos/noticias/iec-detecta-do-virus-vacinal-da-poliomielite-sabin-like-3

Documento técnico de vigilância epidemiológica das paralisias flácidas agudas/poliomielite. Disponível em: https://saude.sp.gov.br/wp-content/uploads/2022/09/DOCUMENTO_TECNICO_POLIO_2022-5.pdf

Ministério da saúde. NOTA À IMPRENSA. Esclarecimento do Ministério da Saúde sobre notificação de caso suspeito de poliomielite no Pará. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/canais-de-atendimento/sala-de-imprensa/notas-a-imprensa/2022/esclarecimento-do-ministerio-da-saude-sobre-notificacao-de-caso-supeito-de-poliomielite-no-para

 

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Flávia Almeida

Infectologia

CRM: 91434-SP

Médica formada pela Universidade de Mogi das Cruzes, com residência em Pediatria e Infectologia Pediátrica pela Santa Casa de São Paulo, doutorado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Professora assistente de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Médica assistente da Infectologia Pediátrica do Departamento de Pediatria da Santa Casa de São Paulo.

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